sábado, 20 de junho de 2015

A Encíclica Verde

Veja abaixo o comentário de Frei Betto sobre a Encíclica “Laudato Si”, do Papa Francisco.

 

Arauto do Templo.

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A encíclica verde

 

Por: Frei Betto (ofm)

Transcrito do jornal “O Globo”, de 19.06.2015

 

            Em homenagem a São Francisco de Assis, o Papa Francisco lançou uma encíclica holística, “Louvado seja”, na qual associa degradação ambiental e aumento de pobreza mundial. O texto se constitui num apelo urgente para a Humanidade sair da “espiral da autodestruição”.

            O chefe da Igreja Católica condena o atual modelo de desenvolvimento focado no consumismo e na obtenção de lucro imediato. Denuncia “a incoerência de quem luta contra o tráfico de animais em risco de extinção, mas fica completamente indiferente perante o tráfico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir outro ser humano do qual não gosta”.

            Salvar o planeta é salvar os pobres, clama Francisco. Eles são as principais vítimas das sequelas deixadas por invasões de terras indígenas, destruição de florestas, contaminação de rios e mares, uso abusivo de agrotóxicos e de energia fóssil.

            O texto resgata a interação bíblica entre o ser humano e a natureza e faz mea-culpa quanto ao modo de a Igreja interpretar o mandato divino de “dominar” a Terra. Também amplia o significado do “Não matarás”: “Uns 20% da população mundial consomem recursos em uma medida tal que roubam às nações pobres e às gerações futuras aquilo de que necessitam para sobreviver.”

            Não há desenvolvimento social e avanço científico positivos, alerta o papa, sem o respaldo da ética e a centralidade do bem comum em tudo que se pesquisa e planeja.

            O combate à idolatria do mercado é enfático, ao frisar que a fome e a miséria não acabarão “simplesmente com o crescimento do mercado. O mercado, por si mesmo, não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social”.

            Além de criticar como inócuas as reuniões de cúpula sobre a questão ambiental, pois os bons propósitos não saem do papel, Francisco amplia o conceito de ecologia ao destacar a “ecologia integral”, a “ecologia cultural” e a “da vida cotidiana”.

            Nenhuma outra encíclica contém tanta poesia. Francisco frisa que “todo o Universo material é uma linguagem do amor de Deus. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus”. E, pela primeira vez, uma encíclica valoriza a contribuição da obra de Teilhard de Chardin, censurado por Roma em toda a primeira metade do século passado.

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