segunda-feira, 4 de maio de 2015

Artigo de Frei Betto sobre Dom Hélder Câmara

O santo Dom Hélder Câmara

 

Por: Frei Betto

Transcrito do Jornal “O Globo”, de 23.04.2015

 

 

Ele dizia: ‘se falo dos famintos, todos me chamam de cristão; se falo das causas da fome, me chamam de comunista’.

 

 

Roma autorizou, neste mês, a arquidiocese de Olinda e Recife a iniciar o processo que poderá levar a Igreja Católica a reconhecer e cultuar Dom Hélder Câmara (1909-1999) como santo. Conheci-o quando era bispo auxiliar do Rio, no início da década de 1960. Homem de muitos talentos, ocupava-se também do movimento da Ação Católica.

Homem de baixa estatura e frágil, tinha características curiosas: quase não se alimentava. Tinha um horário estranho de sono: deitava-se por volta das onze, levantava-se por volta das duas da madrugada, sentava-se numa cadeira de balanço e se entregava à oração. Era, como ele dizia, seu “seu momento de vigília”. Rezava até as quatro, dormia mais uma hora e se levantava para celebrar missa.

Na década de 1960, Dom Hélder encabeçou, no Rio, a Cruzada São Sebastião, projeto de desfavelização criado por ele. Não deu certo, o que o levou a combater as causas da pobreza.

Espírito gregário, onde chegasse juntava gente em torno dele. Foi quem criou a CNBB, inventando as conferências episcopais, e o Celam, o conselho dos bispos da América Latina.

Esses organismos que, de certa forma, descentralizam a igreja romana, saíram da cabeça do bispo que, para azar dos militares golpistas, virou arcebispo exatamente em 1964. O papa o nomeou para São Luís e, dias depois, o transferiu para a arquidiocese de Olinda e Recife, na qual permaneceu até falecer.

No Concílio Vaticano II (1962-1965), liderou o Pacto das Catacumbas, pelo qual inúmeros bispos se comprometeram com a “opção pelos pobres”, dando origem ao segmento episcopal que, mais tarde, se identificaria com a Teologia da Libertação.

Indicado, em 1972, ao Nobel da Paz, Dom Hélder não ganhou o prêmio por duas raz~]oes: primeiro, pressão do governo Médici. A ditadura se veria fortemente abalada em sua imagem no exterior caso ele fosse laureado. Mesmo dentro do Brasil, Dom Hélder era considerado persona non grata. Censurado, nada do que o “arcebispo vermelho” falava era reproduzido ou noticiado pela mídia de nosso país.

A outra razão: ciúmes da Cúria Romana, que considerava uma indelicadeza da comissão do Nobel da Paz conceder a um bispo do Terceiro Mundo um prêmio que deveria, primeiro, ser dado ao papa.

O governo militar temendo que algo acontecesse a Dom Hélder e a culpa recaísse sobre a ditadura, enviou delegados da Polícia Federal para lhe oferecer proteção. Dom Hélder reagiu:

- Não preciso de vocês, já tenho quem cuide de minha segurança.

- O senhor não pode ter um esquema privado. Todos que têm segurança precisam registra-la na Polícia Federal. Essa equipe precisa ser de nosso conhecimento, inclusive devido ao porte de armas. Quem cuida da sua segurança?

- Podem anotar, são três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo – retrucou Dom Hélder.

Incomodava ao governo ver desmoralizada, por Dom Hélder, a imagem que a ditadura queria projetar do Brasil no exterior. Ele sempre ressaltava que, se o governo brasileiro quisesse provar que ele mentia, então abrisse as portas do país para que comissões internacionais de direitos humanos viessem investigar, como fez a ditadura da Grécia.

O golpe mais cruel que a ditadura impôs a Dom Hélder foi o brutal assassinato de seu assessor para a juventude, o padre Antonio Henrique Pereira Neto, de 29 anos, em março de 1969, no Recife.

Dom Hélder costumava repetir: “Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão; se falo das causas da fome, me chamam de comunista”.

 

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Breve comentário:

 

         Até 1961 morei na Rua da Matriz, em Botafogo. Por diversas vezes tive a oportunidade de apenas cumprimentar Dom Hélder, acompanhado de sua irmã, quando se dirigia para a Igreja de São João Batista da Lagoa, sendo correspondido sempre com um simpático sorriso. Dom Helder morava na Rua Barão de Macaúbas, rua que fica no sopé da favela do morro Santa Marta.

         Um projeto de Dom Hélder, não mencionado no artigo acima, que vem dando certo até hoje, foi a Feira da Providência, em Novembro de 1960, no Parque Lages, para arrecadar fundos para auxílio aos pobres. O sucesso foi tamanho, que acabou por se fundar o Banco da Providência.

 

Arauto do Templo.

 

 

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