quinta-feira, 9 de abril de 2015

Teilhard de Chardin, meu guru

Por Frei Betto

 

Transcrito do jornal O Globo, de 09.04.15

 

Aquela cabeça fora capaz de conceber uma das mais abrangentes visões do Universo, na qual todos os elementos se integram

 

 

         No domingo de Páscoa, 10 de abril de 1955, há 60 anos, em Nova York, o jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, 73, levantou-se da cadeira para servir-se de chá. Não chegou à mesa. Um ataque cardíaco pôs fim à sua vida. No enterro não havia mais de três pessoas.

         Para muitos, sua morte representou um alívio. Cessara o movimento daquele cérebro poderoso. Como tantos que ousam pensar pela própria cabeça e se recusam a acreditar que a verdade é filha da autoridade. Teilhard teve um final solitário.

         Aquela cabeça fora capaz de conceber uma das mais abrangentes visões do Universo, na qual todos os elementos se integram, das micropartículas subatômicas à atração de toda a matéria pelo Ponto Ômega, que coroaria o processo de evolução da natureza. Essa grandiosa síntese foi registrada em livros e artigos que, durante sua vida, seus superiores nunca permitiram que fossem publicados, com receio de um novo caso Galileu.

         Editada após a sua morte, a obra de Teilhard alcançou, na década de 1960, repercussão inesperada. Figurou meses na lista de best sellers da Europa e dos EUA. Em 1962, introduzi Teilhard no Brasil graças às traduções de Conrad Detrez. Os resumos em apostilas mimeografadas, vendidos à porta de faculdades do Rio, estão hoje no livro “Sinfonia Universal – a Cosmovisão de Teilhard de Chardin”. Mais tarde, graças a Teilhard, aprofundei a relação entre espiritualidade e física quântica em “A obra do artista – Uma visão holística do Universo”.

         Nascido na França, Teilhard era filho de uma neta de Voltaire, pensador que introduziu em seu país as teorias de Isaac Newton e combateu toda espécie de superstição e intolerância. Aos 11 anos, aluno de colégio jesuíta, Teilhard demonstrou interesse pela geologia. Encontrou um mestre que o convenceu de que o melhor serviço a Deus pode ser o amor às pedras...

         Em 1913, aos 32 anos descobriu o amor a uma mulher. “Estando desde a infância” – escreve ele em “O coração da matéria” – “à prcura do coração da matéria, era inevitável que, um dia, eu me encontrasse face a face com o Feminino [...] Parece-me indiscutível que ao homem – mesmo a serviço de uma causa ou de Deus – não é possível nenhum acesso à maturidade e à plenitude espiritual fora de qualquer influência sentimental que venha nele sensibilizar a inteligência e suscitar, pelo menos inicialmente, as potências de amar”.

         Doutorou-se em Ciências em 1923, na Sorbonne e, em 1923, fez sua primeira viagem à China. Participou da descoberta da primeira prova da existência do homem pré-histórico. Escreveu então uma de suas mais belas obras, “A missa sobre o mundo”.

         De volta a Paris, em 1924, seus trabalhos adquiriram fama. Seus superiores, preocupados com suas ideias pouco ortodoxas, o forçaram a abandonar o Instituto Católico de Paris e a retornar à China. Em Tien-Tsin, escreveu “O meio divino”. Em 1929 participou da descoberta de Sinantropo, e passou a se preocupar com a origem da espécie humana. Começou a redigir sua obra mais famosa, “O fenômeno humano”.

         Retornou a Paris em 1946. O Colégio da França lhe ofereceu uma cadeira. Ele pediu a Roma permissão de aceita-la, bem como de publicar “ fenômeno humano”. Não conseguiu. No ano seguinte, havia escrito sua autobiografia “O coração da matéria”.

         Teilhard buscou a verdade nas pedras da montanha e nos esqueletos dos ancestrais da espécie humana, confiante de que a evidência da verdade é filha do tempo. Censurado, calado, exilado, não abandonou suas pesquisas e escreveu convencido de que a posteridade lhe daria razão, tendo tido o cuidado de confiar os originais a parentes e amigos com liberdade de divulgar sua obra.

 

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Nota – Inscrições para a Investidura de 2016 estão abertas até 31.05.

 

Arauto do Templo.